
Escrita por: Pedro Rubens
Quando Sandra Sá compôs a canção “Bye Bye, Tristeza” talvez não imaginasse as inúmeras proporções que ela tomaria. Muito menos que seria utilizada como trilha para uma cena que utiliza tal letra — e seu significado — mas aplicando-a sob o prisma da morte/vida. Ao dizer que não está aqui pra sofrer, que não há motivos para sentir saudade e que quer ser feliz, uma vida se encerra enquanto o primeiro impacto (visceral!) toca o público… Atenção, senhores passageiros, apertem os cintos!
‘Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente’, nova série nacional da HBO, nos mostra a frenética vida no Rio de Janeiro quando a epidemia de AIDS assola o Brasil, na década de 1980. A história mostra como pilotos e comissários de bordo trouxeram o medicamento AZT para o país, numa época em que não havia tratamento disponível.
A história é narrada sob a perspectiva de Fernando (Johnny Massaro) e Lea (Bruna Linzmeyer), dois comissários de bordos e melhores amigos, e Raul (Ícaro Silva), dono da boate Paradise. Entre idas e vindas, voos e decolagens, todas as faces desse quebra-cabeça se mostram preparadas para contar um enxerto voraz, mesmo que longe de ser apelativo, do que um dia fora o Brasil.
Já no primeiro capítulo a vibrante capital fluminense, cheia de cores e vida, é maculada pela AIDS — trazendo consigo todo o preconceito de uma sociedade que vive às margens de conservadorismo, desinformação e moralismo. Enquanto alguns insistem em acusar apenas os LGBTQIAPN+ de serem os causadores da epidemia, outros (inclusive da própria comunidade!) mentiam para si ao dizer que era ‘apenas uma gripezinha’.
MONCA, como foi carinhosamente abreviada a série, é crua e não tem medo de tirar de cena personagens que demonstram ser o alicerce de tudo o que o público assiste. Isso fica evidente quando, ainda no primeiro episódio, Pantera (Verónica Valenttino) — mulher trans e mãe adotiva de Raul — se despede ao som da música supracitada de Sandra Sá.
Ecoa o grito de liberdade, ao despir-se de um corpo repleto de chagas da Sarcoma de Kaposi, com a sensação de que viveu tudo o que lhe foi permitido. Tal grito reverbera e passa a ser a linha que costura toda a série quando outros tantos personagens — já apresentados ou que ainda o serão — são infectados e lutam por suas vidas.
Ao ser diagnosticado com a síndrome, Nando opta por negar e esconder de todos. Entretanto, os sinais não dão trégua e sua fiel escudeira, Lea, consegue quebrar a camada protetora que ele criou e dá as mãos para que saiam dessa. Porém, a única maneira é a partir do tráfico de AZT, medicação recém-autorizada nos EUA.
Quando o protagonista toma as primeiras doses do tratamento e percebe a melhora, logo cria-se uma teia de apoio, envolvendo outros colegas de profissão, inclusive a Dra. Joana (Hermila Guedes), médica da empresa aérea na qual os personagens são funcionários, Barcelos (Júlio Machado), piloto da companhia e que tem um caso com Lea, e Yara (Eli Ferreira), comissária e aspirante a primeira mulher negra a pilotar um avião na empresa.
Obviamente, cada um dos envolvidos terão seus respectivos motivos para arriscarem suas carreiras em prol da medicação. Seja um filho que adoece, um irmão distante à beira da morte, ou a chantagem de uma gestação não planejada, todos enxergam o AZT como uma espécie de luz no fim do túnel para postergar o destino que a sociedade já apontava.
Para além dos dilemas individuais dos personagens, ‘Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente’ consegue a façanha de adaptar milimetricamente o preconceito da sociedade da época. Seja em uma simples cena onde Raquel (Carla Ribas) sugere um casamento para seu filho, Nando, ou quando Andréia Brito (Andréia Horta), concede uma entrevista afirmando sua infecção pelo vírus HIV e garante que ele não se restringe apenas à comunidade LGBTQIAPN+, mas às donas de casa, aos homens moralistas e afins. Tal personagem é inspirada em Sandra Bréa, que lutou contra a discriminação após revelar publicamente a infecção pelo vírus.
Entretanto, quando a Polícia Federativa recebe denúncias, todo o plano para trazer o medicamento para o Brasil vem ao fim. E é nesse ponto que o espectador se sente exatamente como os personagens da série: desesperançados ao mesmo tempo que tomados por uma revolta repentina. Assim, essa é a deixa para outros personagens desenvolverem-se: Sônia (Rita Assemany), infectada após Antunes (César Augusto) — seu marido — envolver-se com Francesca (Kika Sena), mulher trans e residente da boate Paradise.
A quebra entre preceitos religiosos e morais em prol da cura, capaz de permitir a continuação da vida, é uma abordagem extremamente arriscada, mas que, de certa maneira, pode fazer sentido para alguns dos que assistirão aos episódios. Entretanto, o risco vale a pena quando a mensagem à ser passada é poderosa e latente — tal como é.
Por fim, o paradoxo criado por Sônia sobre “Oceano - Deserto - Paraíso” consuma-se ao fim do último episódio da produção. Afinal, ao navegar no oceano não há mais a possibilidade de enxergar tamanha beleza no deserto, o que leva o ser humano a encontrar a liberdade no paraíso — seja ele onde ou como for. E isso, MONCA nos ensina com maestria!
Certamente, ‘Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente’ é uma das grandes minisséries do ano. Com sua mescla entre câmeras atuais, VHS e Super-8, a produção fala sobre presente, passado e futuro com sutileza ao passo que choca despretensiosamente. A sua contemporaneidade está para além de qualquer recorte histórico de décadas atrás. Pelo contrário, todos nós da comunidade teremos um lugar de refúgio para entender de onde saímos e onde não devemos aceitar voltar.
Assim, poderemos ser a Bete Balanço que Cazuza um dia cantou, o garoto que vai ser artista de cinema narrado por Lulu Santos ou, simplesmente, a pessoa que já sabe olhar para si sem precisar de espelhos, conforme descrito por Sandra Sá. No final das contas, ninguém solta a mão de ninguém e seguimos insistindo, resistindo e reverberando em tempo e fora de tempo, afinal…
Essas máscaras de oxigênio não cairão automaticamente!
Os próximos 4 episódios da série serão disponibilizados semanalmente, aos domingos, na HBO Max.
Nota: 8,7